terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Carrossel

Dia após dia, mais uma voltinha...
A música tocava, as luzes brilhavam e no carrossel, por vezes sentado, rodava, rodava, girando sobre si mesmo, perdido no andamento. Outras vezes, alternava e sentava-se em uma outra figura mais elevada. Erguia-se levantando o braço, tentando chegar com a mão aos balões pendurados, que iam aparecendo sobre si, colmatando a monotonia do andamento, quebrando a rotina, a esperança tênue.
Um dia, cansado, mas sem perceber como, foi cuspido do carrossel. Este não parou!.. Continuou a andar, assim como as luzes continuaram a brilhar, piscando ao som da música e girando, dando sucessivas voltas, mas sempre sem parar. Ao contrário, a sua vida parou, caducou o bilhete, perdeu a viagem... E ali!? já não tinha lugar...

sábado, 14 de novembro de 2015

Ontem morri por dentro...

Ontem morri por dentro...
Preparava-me para ver 'Bem-vindos a Beirais' e rir-me um pouco com a Alzira, os cangalheiros, o Agostinho, o Tó Zé e demais personagens.
Já estava a passar o genérico e o vício levou-me a ir espreitar o Twitter para ver as últimas 'bocas' acerca da situação nacional. Começava-se a falar de Paris. Os Beirais começava, mas a minha curiosidade estava em outra realidade.
No Twitter já era bem evidente a existência de um atentado terrorista. Os quatro, na altura, acontecimentos em simultâneo não davam margem de dúvida. Nem me lembro do título de ontem de 'Beirais', se é que cheguei a ler. Depressa fui procurar mais informação nos nossos canais que se dizem de informação. Comentários!... Gente a falar de futebol, da situação política nacional. A falarem de treta, comentando o que já havia sido comentado diversas vezes ao longo do dia, da semana... Enquanto isso, em rodapé, eram vagos. Notícia de última hora anunciando explosão  e tiroteio em Paris. E foi assim durante quase uma hora.
No Twitter a informação ia caindo, quase ao segundo. Vimos o número de mortos a crescer. Primeiro dois, depois quatro, ultrapassando as dezenas, chegando às centenas. Uma sala de espectáculo com reféns e onde se fuzilavam pessoas, o som das explosões durante um jogo de futebol, pessoas em pânico, sirenes... As imagens de horror surgiam enquanto as novelas na TV passavam e nos canais de informação, continuavam a debater o sexo dos anjos. Canal francês, 209 na NOS foi a opção.
Quando em Portugal, perceberam a gravidade do que se estava a passar em Paris, já quem acompanhava as redes sociais e canais de TV estrangeiros estava morto. Mortos por dentro, ao acompanhar quase em directo a barbárie, o massacre. As imagens e o som, os relatos de quem estava no palco dos acontecimentos e de quem conseguiu sobreviver. Quando os nossos canais acordaram, no Twitter, já quase se vivia uma ressaca sentimental e nada mais passavam do que já tínhamos visto, ouvido... Impossível ficar alheio. Impossível não ter brotado uma lágrima  pelo que se estava a presenciar. Só de imaginar!... O sofrimento, a agonia, o medo,... Faz-nos morrer primeiro, por dentro, não conseguindo sequer imaginar. Só hoje consegui ter palavras... Ontem morri por dentro...

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Despertador

Ainda não eram oito horas. O despertador não tocou. Os olhos abriam-se e o corpo despertava para mais um dia, sem nunca o despertador ter tocado. E era assim nos sete dias da semana. Mentira! Por vezes era bem antes das sete ou das seis. Já lá iam uns meses, uns anos nesta rotina e o despertador teimava em não tocar... A verdade é que também não tinha sido programado. Era a vida que o despertava. A vida que o abandonou.  

terça-feira, 26 de maio de 2015

O rapaz e o "Toffe Crisp"

Podia contar a história da russa(!?) que ia sentada mesmo à minha frente, no expresso Lisboa-Porto e que passou mais de uma hora ao telemóvel, sempre a falar em tom alto. Entre portugueses, espanhóis, brasileiros e ingleses, os que consegui identificar, dificilmente alguém dentro do autocarro perceberia o idioma que falava. Era como se estivesse sozinha. Felizmente que lhe deu a fome e começou a encher a boca de uvas. Desejei que estas nunca mais acabassem. Não sei se acabaram ou não ou se a rapariga ficou sem bateria no telemóvel, mas até ao fim da viagem, nunca mais lhe ouvi um “piu”. E os tímpanos agradeceram.

A meu lado, sentou-se um rapaz. Chegou com os calores – o dia esteve bastante quente em Lisboa. Ligou e dirigiu o ar condicionado mesmo para cima de si. Não chegou à zona de Fátima, sem espirrar, assoar-se, vestir o casaco e desligar o “seu” ar condicionado.
Com a sua espécie de telefone “3310” e a “Bic” com que foi escrevendo ao longo da viagem em papel branco que tirava da mochila, identifiquei-o como aqueles intelectuais que abominam as novas tecnologias. Ou assim quis identificar, rapidamente e certamente, com grande margem de erro. 
Não sei o que escrevia. Só consegui decifrar “XV” e “XVI”. Portanto, dois capítulos escreveu, mas do quê, não sei.
A mochila parecia a do Sport Billy. De vez em quando, colocava a mão e retirava do seu interior qualquer coisa. Uma das vezes foi um chocolate, tipo “Toffe Crisp”. Abriu-o, com todo o cuidado, deu uma trincadela e voltou a guarda-lo na mochila. Mas que raio!! Quem consegue dar só uma trinca num daqueles chocolates, que na minha posse durava um máximo de... 2 minutos!? Grande poder de controlo, disse eu para mim.
Mais meia hora ou três quartos de hora, volta a ir buscar novamente o chocolate. Mais uma trinca e volta a coloca-lo na mochila. Tinha a minha admiração. O meu suposto “alarvamento” em igual situação, não compreendia tal proeza.
E comecei a acreditar que no final das três horas e meia de viagem, ainda haveria chocolate.
Um quarto de hora. Foi quanto durou a investida seguinte à mochila. Desta vez, tira um saco com uma carcaça (molete, papo seco). E eu “Fantástico! Vai conseguir acabar a viagem sem acabar o “Toffe Crisp”!...” Mas de repente, a mão vai novamente à mochila, saca de uma tablete de chocolate com avelãs, parte-a e coloca-a dentro do pão. Devorou a sandes, mais depressa que um terço do “Toffe Crisp”.
Cheguei à conclusão, que o rapaz, afinal, não se conseguia controlar perante chocolate. Grande desilusão. Não devia era gostar do “Toffe Crisp” e por isso o ter aguentado tanto tempo.


P.S.: No fim da viagem, já no terminal, ainda o vi a dar mais uma trinca no “Toffe Crisp”. Tinha percebido tudo ao contrário. Aos meus olhos, de indivíduo controlado, passou a viciado. E entre cada ressaca, controlava-se com doses “suaves” de “Toffe Crisp”. Mesmo assim, aquele chocolate durou tempo demais.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Até Sempre Avó

Lisboa, 10 de Fevereiro de 2015.

Querida avó,

Lembro o dia, como se fosse hoje, em que me ensinaste a não dizer 'Adeus' mas sim um 'Até logo', um 'Até amanhã' ou um simples 'Tchau', na hora da despedida.
Passaram muitos anos desde essa data e hoje, que Deus te chamou, também não vou dizê-lo. Acredito que havemos de nos voltar a encontrar um dia...
Nem sei porque estas lágrimas teimam em escorrer por meu rosto e este tremer que não de frio domina meu corpo. Imagino que já estejas com o avô (amor de toda uma vida), com o pai (teu filho mais novo), com as tias (tuas irmãs, amigas e companheiras) entre outros familiares e amigos.
Neste Mundo, que dizem ser dos vivos, onde durante os últimos anos, a doença já não permitiu que (re)conhecesses tua família, ficou (mais) um vazio. Mas mesmo 'desconhecendo' quem éramos, a empatia connosco fazia com que dissesses que gostavas de nós e da nossa companhia. E sorrias... E nós gostávamos de ouvir e ver... Foi estranho ouvir-te avó, tratares-me a mim e ao resto da família por 'senhor' ou 'senhora' e 'menina' às bisnetas. Dadas as circunstâncias, sorriamos e brincávamos com a situação, com o teu ar de espanto e alegria, quando dizíamos que éramos teus netos ou bisnetas.
Acredito que aí, onde descansas agora, após 91 anos de viagem na Terra, seja diferente e até consigo ouvir tua gargalhada ao leres este episódio.
Conhecendo o avô, recebeu-te com um poema e o pai com uma flor. Não foi?
Por aqui, mesmo sabendo, que agora já não estás em sofrimento, a hora é de tristeza. Muita!... É o tal egoísmo que o Ser Humano tem de só pensar em si... Sorri aí de cima e deixa-nos chorar... Sabes que não consigo evitar... Toda uma lembrança, toda uma saudade... E mais um amor que parte...
Obrigado por tudo avó, descansa em Paz
Beijinho
E Até Sempre!
João Pedro



segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Vitiligo



'Uma doença que provoca manchas brancas'. Foi assim que definiram o Vitiligo, ontem, no Jornal da Noite da SIC. Não gosto de a denominar como 'doença', mas sim como 'problema'. Um problema do sistema imunitário, que não produz melanina suficiente para pigmentar a pele. Daí a despigmentação - aquilo a que chamam manchas brancas. A melanina é a substância que todos nós produzimos e que dá cor à nossa pele. Quando o nosso sistema imunitário não produz a suficiente, não pigmenta, ou seja, não dá cor e a pele fica ‘branca’.  
Como referi, não gosto de chamar ao Vitiligo, uma doença. Não causa dor nem comichão, não se transmite de pessoa para pessoa e também não está provado ser hereditário, apesar de existir pré-disposição. Quer isto dizer, que se existirem problemas de pele em familiares, mesmo não passando pelo Vitiligo, a probabilidade de se ter torna-se maior. Portanto, o único inconveniente, é mesmo, a nível estético. Raros são os casos de reversão total das manchas, pois não existe remédio, vacina, tratamento para a sua cura. Em alguns, poucos, casos pode regredir, mas na maioria dos casos estagna por uns tempos e/ou continua a avançar. Geralmente receitam pomadas que custam um balúrdio. Só para terem a noção, há uns bons anos atrás, o preço de uma bisnaga rondava os noventa euros - e sem comparticipação, como todas estas pomadas. Existem também uns comprimidos que fazem activar a melanina e neste caso, o mais provável, é continuar-se com as manchas e o resto do corpo acentuar a cor. No meu caso, fiquei cor de laranja. Há também a fototerapia. Deste tipo de tratamento, não tenho experiência. Ainda espero que me chamem do hospital para iniciar o tratamento. Não posso precisar a última vez que fui à consulta de dermatologia, mas certamente há mais de 6 anos. Nunca me chamaram e eu também não me chateei com isso. Sim! Desisti! Ao fim de anos a gastar rios de dinheiro, especialmente em pomadas, cujo resultado foi praticamente nenhum. Não sei se a estagnação do alastramento se deveu às ditas pomadas ou simplesmente porque assim aconteceu.
Mas desisti. Toda a vez que saía da consulta, de receita na mão, era uma esperança acrescida e por isso, nunca me importei de gastar aquele dinheiro todo. Esperança, que diluía no tempo, à medida que os dias iam passando e o desânimo aumentava para depois vir nova pomada e nova esperança... fugi! Esta montanha russa de animosidade  fez-me desistir. 
Cansei-me das falsas esperanças e muito mais do desânimo que me criava. Não sei se já teria os meus vinte anos, quando começaram a aparecer as primeiras manchas e nesta idade, se para alguns o acne é o maior problema do Mundo, imaginem ter manchas no rosto. E aqui reside o maior problema do Vitiligo - o psicológico. Num mundo, onde cada vez se dá maior importância ao factor estético, onde a beleza está definida num estereótipo de perfeição, um jovem que é confrontado com este problema pode com muita facilidade entrar em depressão. Penso que, psicologicamente, me aguentei bem... Fingi não me importar, quando a verdade era outra. Escondi-me em alturas mais sensíveis para não ser confrontado. Mas regra geral, safei-me sem a necessidade de apoio psicológico ou de tomar qualquer outro tipo de drogas. Talvez devido aos anos de falsas esperanças. Depois... Aprendi a viver com isto. Lembro-me nas pesquisas que fiz, de ler um estudo brasileiro acerca do Vitiligo e a taxa de suicídio nos jovens era assustadoramente alta. Quando as manchas surgem em partes do corpo que geralmente estão cobertas, a importância nem é grande. Mas quando começam a aparecer no rosto... Não é fácil andar na rua e ver as pessoas a olharem de lado para um rosto manchado ou quando estendemos o braço para cumprimentar e a pessoa fica indecisa a olhar para a nossa mão e a aperta a medo. Com o passar do tempo, percebemos que não é por mal, mas simples ignorância originada por falta de informação. 
Todo o Mundo sabe, que Michael Jackson tinha a pele escura e um dia apareceu branco. Chamaram-lhe racista, fizeram chacota e mil e uma anedota acerca disso. Mas certamente, poucos sabem que tinha Vitiligo. E uma das soluções, quando a zona manchada é maior que a normal é a despigmentação total. Se a pigmentação é quase impossível, já a despigmentação é mais fácil, apesar de não garantir a 100% a mesma tonalidade em todas as zonas. Com a despigmentação da pele, ausência de melanina, a pele fica mais desprotegida e sensível à luz solar e raios ultra-violeta. Uma das recomendações médicas  a quem tem Vitiligo é usar sempre protector solar, todo ano, e não só quando vai à praia. Por isso, Michael Jackson, depois de ter feito a despigmentação protegia-se, quase que de uma maneira obcecada, do sol. 
Veio este tema, devido à reportagem de uma rapariga que quer fazer a diferença no mundo da moda por ter Vitiligo. Sem dúvida que é um exemplo para todos aqueles jovens que têm o mesmo problema. Muito mais, quando se tem a pele escura. No meu caso, tenho a pele bastante clara e as manchas só se fazem notar mais no Verão. No resto do ano, nota-se em algumas zonas do corpo, pois onde não há pigmentação, também os pelos ficam brancos.
Com mais de 18 anos de vida com isto, conto pelos dedos de uma mão, as pessoas que me perguntaram o que eram estas manchas que apresentava. Pode ter sido por vergonha de perguntar ou por indiferença (no bom sentido) mesmo, mas hoje, ao lerem isto, vão exclamar 'Ah! Então aquelas manchas é Vitiligo', outras ficam a saber, o que realmente é. E assim, a vida continua. 
Não vejo o Vitiligo como doença pois não me sinto, nem nunca me senti doente com isto. Vejo-o como um problema... Um problema que é preciso aceitar e saber lidar psicologicamente com ele. 
Dizem que em Cuba, existe um tratamento com grande probabilidade de cura. 
Não sei até que ponto é verdade ou meia verdade. Existem opiniões para todos os gostos. Por mim, continuarei sem saber a real resposta. Já tive a minha dose de dermatologistas e de momento, não penso em voltar tão cedo às consultas. A vida continua... Mas nunca nos esquecemos da sua presença.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Praia do Torel



Muito provavelmente não tenciono lá ir. Não que esteja contra ou a favor, porque nem sequer tenho opinião formada. Se calhar por ser Sazonal e não algo definitivo.   
Conheço muito bem aquela zona. Bem perto do jardim de infância que frequentei e para onde a educadora nos costumava levar a passear e onde criava jogos para nos entreter - Houvesse bom tempo. 
Praia do Torel que fica lado a lado com a escola primária, onde a professora Guiomar me ensinou muito, durante quatro anos, a ser também quem hoje sou. Várias vezes o recreio, saltava do interior da escola, para o exterior, Não só para a zona do terraço da escola, miradouro excepcional de Lisboa, como da zona do lago onde vai ser implantada a praia ou mais uma vez, alargado ao jardim circundante onde cheguei a plantar uma árvore no seu Dia Internacional. Lago, onde um colega decidiu “entregar” o bilhete da professora para sua mãe e que uma das auxiliares da escola (naquele tempo “contina”) presenciou e recolheu... Tanta reguada que apanhou… Escola primária frequentada também por minha mãe, ainda do tempo, meninos de um lado e meninas do outro. Quem conhece a escola sabe das suas várias entradas e uma delas fica bem junto do dito lago. Houvesse escola e ao toque de saída, era entrar directamente na praia.
Anos depois de finalizada a escola primária, voltei ao Torel. Naquele mesmo lago, onde agora vão construir uma praia, só não tomei banho porque era “betinho” e/ou "certinho" de mais. Não me lembro se algum dos meus irmãos tomou, mas vários amigos e colegas de brincadeiras de rua assim o fizeram. Quem diria!? Visionários!...
Depois!? Começou a ganhar má fama e simplesmente deixámos de o frequentar. Mais! Meu pai proibia-me de frequentar o Torel e assim obedeci. Quem lá ia sabia bem quem encontrar e o que encontrar. Conhecíamos bem os frequentadores, mas felizmente, a maior parte de nós, seguiu o outro lado da vida. Não os conseguíamos evitar por completo, porque várias vezes passavam na nossa zona de conforto, que era a Rua do Passadiço e o respectivo campo de jogos e acabávamos por trocar conversa da treta durante uns minutos. Era isso! Uma treta de conversa onde basicamente ouvíamos os feitos da droga e para a droga. A miséria de ver miúdos de 14 anos completamente pedrados e já com ficha policial.   
Passei por lá há dois ou três anos atrás com a Isabel e uns seus colegas e fiquei contente por estar novamente diferente, de ter rejuvenescido. E se hoje vão fazer lá praia, desporto e trazer a cultura até ao Torel, só tenho a agradecer a quem dele não se esqueceu. Foram muitos anos… e é uma de muitas zonas de Lisboa, que faz parte de mim.