domingo, 30 de abril de 2017

Manuel Barbeiro

Manuel Barbeiro. É este seu nome. Adquirido como tantos outros no tempo em que alcunhas se tornavam apelidos. Seu pai foi barbeiro de profissão e ele próprio, conta, também o foi durante 40 anos, dos 86 que carrega. 40 anos de barbeiro, mas muitos mais de artesão figurinista.
Leva-nos a ver suas peças. Vejo e concluo que no meu presépio tenho peças de sua autoria, que desconhecia. Já antes tínhamos estado em casa de outros artesãos onde pude constatar o mesmo. As figuras, que ano após ano, desembrulho e coloco em cena constituindo o presépio, começam a ganhar um pai, uma história. Rostos cujas rugas não deixam esconder a idade. Memórias, que irão sempre acompanha-las.
Manuel Barbeiro, não parou de sorrir desde que abriu a porta de sua casa. Ali, em Galegos (Santa Maria), freguesia de Barcelos, terra de oleiros e artesãos, onde nasceu o Galo de Barcelos, as casas de habitação confundem-se com as oficinas. Um dois em um. Manuel conta um pouco de sua história, de sua vida. Do desgosto pelo filho não ter seguido o mesmo caminho, apesar de ter jeito para a 'coisa'. Da alegria de lhe terem batido à porta duas japonesas, que queriam conhecer o autor de uma exposição que tinham visto em Lisboa.
Manuel dedica-se agora às procissões. A maior terá 80 peças e trabalho não lhe falta.
Ficámos de falar em Março, para ver quando poderá fazer a nossa procissão.
Manuel Barbeiro, educado, agradeceu a visita. Saímos em silêncio e quando chegámos ao carro, nosso pensamento foi igual - Será que viverá o tempo suficiente para fazer nossa encomenda? Não sabemos! Mas independentemente de tudo, já tinha valido a pena. A imagem daquele sorriso com 86 anos já ninguém nos tirava.
Estávamos em Novembro.

Como tinha sido combinado, em Março ligámos. Associou logo o telefonema ao 'casal do Porto' e ficámos de ir buscar nossa encomenda nesse mesmo dia, depois do almoço. Já estava pronta, para grande surpresa nossa.
Um senhor, como já existem poucos. Recebeu-nos novamente com a mesma simpatia. Mais dois dedos de conversa, mais histórias que trazemos e que não têm preço.
A 'procissão' já estava acondicionada e devidamente encaixotada. E sem a vermos, confiámos, tal como Manuel tinha confiado em nós sem pedir qualquer adiantamento, e pagámos aquilo que achámos justo. Manuel sorrio.
Pouco depois estávamos de saída. Levou-nos à porta e agradeceu, como nós também agradecemos.
"E qualquer coisa que não esteja bem, voltem, que eu troco..."
Apetecia voltar.  "86 anos e nunca enganei ninguém". E assim continua... Um senhor de palavra, como há poucos.
Talvez voltemos um dia, não para reclamar, mas para mostrar suas figuras expostas em nossa casa. De certeza que gostará.

Sem comentários:

Enviar um comentário